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Hoje à noite, enquanto olhava o rosto do espelho após escovar os dentes, Tânia percebeu que não se parece apenas com seus pensamentos, como havia compreendido há algum tempo. Parece-se mais com suas ações do que com seus pensamentos. Na verdade, pensamentos e ações deveriam ser pares, mas às vezes, talvez na maioria das vezes, têm sido ímpares. No ano passado – e ela pode ver isso nas fotos – tinha uma aparência sexy, solta, talvez mais livre e ousada. Hoje, tem uma aparência serena, talvez até plácida. Tem que pintar os olhos com preto para não passar despercebida. E seus cabelos, que sempre foram espessos, parece que agora estão reduzidos a um terço do que eram. Onde foi parar aquela Helena? Tânia não é mais a Helena de antes, arrebatadora, atraente, quase atrevida quando precisava. É apenas Tânia, uma trabalhadora que abdicou até mesmo de seus melhores sonhos. E mais cedo, quando viu seu nome no monitor do caixa do supermercado, por um breve momento, segundos, mesmo, perguntou-se quem era Tânia. E teve um entendimento de não ser ninguém, nada. Entendeu isso e pagou a conta. Mas ser nada não quer dizer que não seja nada, que não tenha valor. Quer dizer apenas que não se deve levar tão a sério. Mas não se levar a sério não quer dizer que deva abdicar de si mesma, e sim que não deve ser tão exigente, intolerante e impaciente. Não se levar tão a sério significa que não deve se importar se hoje não é uma Helena. Amanhã, talvez o mais tardar no próximo ano, será novamente uma Helena. Um dia, será avó. Talvez bisavó. Tânia foi dormir satisfeita por mais uma vez ter se lembrado de que deve viver todas as fases – boas e más – em toda a sua essência. 
Amor, afinal, é a soma do que dele se diz e do que se sente quando se diz que o sente. Falo do amor entre mim e os homens que amei, que ainda amo. Nunca amo somente um, e amei todos os que já amei. Amo diferente, sem querer amar. Amo quando preciso da sua amizade e da sua paixão muito mais do que tudo que já tenho na vida para sentir que a existência pode ser suave. Amo quando sou capaz de esquecer. Amo quando me desespero, cometo desatinos e me ponho quase histérica. Amo quando desprezo, quando deixo de amar. Amo-os, mas sempre menos do que a mim mesma. Amo homens diferentes, e todos me amam, ou me amaram. Amo beijos, abraços, noites de intimidade, sessões de cinema, a simples companhia, a troca de olhares cúmplices e famintos, a linguagem dos corpos que se querem e deixam claro o que desejam. Amo quando sou capaz de dormir e esquecer que amo, porque o amor que sinto é demasiado amor para ser vivido de maneira torpe. E sofro quando amo. Mas sou feliz quando amo. Hoje, amo e sinto tudo que se sente quando se diz que se ama. Amanhã, acordarei cedo, passarei o dia fora e dormirei quando estiver exausta, somente para tentar parar de sentir o que se sente quando se diz que se ama. O amor, afinal, é isso e mais um universo de sensações e desejos, e sinto tudo isso que se sente quando se quer dizer-se amando. Afinal, acho que amo mais o amor do que seus objetos.
De que estranha essência foste feito,
que não me deixa ter outro eleito?
De que tamanho é meu peito,
para não suportar tal efeito?
 
Que sabor é o dos teus lábios,
que me parece fruta doce?
O que me dizes quando me olhas,
que não penso em outra coisa?
 
Que fatalidade é a do teu ser,
que me queima a pele, faz-me adoecer?
Que cheiro é o teu, meu amor,
que não me sai do corpo?
 
Que dias são esses em que não estás aqui?
Que horas infindáveis essas em que não te tenho!
Que fatalidade o nosso fracasso,
que não me deixa sequer sonhar!
 
Para que, então, dizer-te que te amo?
Para que tudo isso, amor, não me afogue em desespero,
quando tenho que suportar a verdade fatal que até sonhar me impede
Então, conta-me: de que estranha essência foste feito,
que não quero outro em meu leito?
Ah, quem me dera saber amar o amor dos desesperados!
Construir quimeras a partir de um mero sorriso
Sonhar acordada todas as horas do dia por causa dele
Ser confiante na sorte do meu sentimento
 
Quem me dera ser ingenuamente apaixonada
Acorrentar o fila que me põe sempre alerta
Apagar as chamas das incertezas
Esquecer as certezas
E ser toda amor sem medo
 
Quem me dera não esperar sempre o pior
Não ser tão racional e decidida
Ser menos forte e menos sincera
Quem me dera ter a medida do controle
Não ser tão convicta do que não quero
 
Quem me dera…
Protógoras disse que o homem é a medida de todas as coisas. Assim sendo, caem por terra verdades – ou conceitos – absolutos. Arrisco-me a dizer que minha vontade é a medida de todas as coisas. E minha vontade primordial é a de não me submeter a nada que não resulte na satisfação absoluta de meus desejos.
Passou!
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